• Thiago Rodrigues

Crescimento Espiritual #6

Série de mensagens refletindo sobre a importância, os princípios e os desafios para o crescimento espiritual



O homem é constituído de personalidade, uma identidade própria, pela qual é definido, se conhece, é conhecido; e decodifica a sua consciência e os anseios do seu coração. É um elemento simples e complexo ao mesmo tempo. É complexo, pois é algo que se encontra na alma, é um mistério dentro de nós, e é constituída por forças diversas. Mas é simples, considerando que se trata de um elemento comum a todos os seres humanos. Todos somos assim, e sendo assim, conseguimos perceber nosso “eu” se manifestando.


Até aqui não há nada demais. O ponto que nos interessa é saber que o nosso "eu", ou a manifestação pessoal de cada um de nós, existe para glorificar a Deus, cumprindo nossa vocação neste mundo, segundo a vontade do nosso Pai Celeste. Isso nem sempre pode ser verdade em nossa vida, mostrando que há uma distorção na maneira como nos vemos e como nos posicionamos diante de Deus e da própria realidade da existência.


A forma como lidamos com o próprio “eu” pode representar um problema de compreensão em relação à existência e ao propósito da vida. Podemos dizer que a infância da alma se encontra na luta pela preservação do “eu”. É como se o “eu” fosse um enfeite valioso, porém, muito frágil, que deve ser preservado a todo custo para não se perder. O problema é que, no intuito de preservá-lo, nos afastamos do sentido de nossa vida, conforme Deus nos criou para ser. Assim, ao mesmo tempo em que trabalhamos em prol da autopreservação, a beleza de nossa existência não é vista em sua plenitude, não damos o fruto esperado, e o enfeite que tanto prezamos perde a sua utilidade. Viver assim é fazer do “eu” um ídolo para si mesmo. Suas pulsões soam como ordens divinas, porém, nunca se satisfaz. O resultado é a frustração, o medo e a sensação de fracasso e vazio existencial.

As pessoas que vivem em função de preservar o “eu” receiam que possam perder o que mais adoram: a si mesmas! Para estes, Jesus disse: “quem quer vir após mim, a si mesmo se negue”. Jesus deixa claro que a maturidade espiritual requer a libertação de um tipo de idolatria do próprio “eu”.


Mas o que isso quer dizer? Creio que é quando o ser humano entende que a vida não lhe foi dada para ser reservada em função de si mesmo, mas para ser dedicada, aplicada – ou ainda: consagrada! Quando isso acontece, o ser humano vive um desabrochar, por assim dizer. Ele se torna capaz de realmente se entregar a uma causa. Mas aí há outro problema: O homem pode se entregar à causa errada.


O homem pode, por exemplo, estar entregue a si mesmo. Pode soar estranho que a quebra do "eu" leve a uma entrega, e logo se conclui que pode se entregar a si mesmo, mas é exatamente o que ocorre muitas vezes. Ou seja, o homem reconhece que precisa dar um salto existencial, que é necessário fazer a entrega de si mesmo, mas acaba se enganando ao fazer a consagração do seu “eu” a si mesmo mais uma vez. Isso nada mais é que uma ilusão, um mecanismo de autoengano. Como uma criança que pega um presente, apresenta-o no ar com as mãos estendidas, como se fosse dá-lo a alguém, então coloca o presente no chão, passa para o outro lado, e recebe o presente que ela mesma ofereceu.


O mundo muitas vezes tem denominado este autoengano de “liberdade”. O moto que rege tal projeto de vida é algo do tipo: “sou livre para fazer o que quiser”, “sou livre para ir atrás dos meus sonhos”, “sou livre para viver sem medo de ser feliz”.


Não é raro ver pessoas que seguem esta linha de pensamento dizendo que descobriram que poderiam ser livres, que por muito tempo se "autossabotaram", e coisas do tipo; mas que agora estão livros e podem ir atrás de seus sonhos. A verdade é que elas estavam presas, na infância da alma, colocando o "eu" num pedestal. Então, deram um salto para frente, só para depois serem arrastadas para o mesmo lugar - como quem luta contra a correnteza - porém, agora com uma sensação de bem-estar, como se alguma coisa tivesse mudado, quando na real, está tudo do mesmo jeito - ou ainda pior!


Vemos neste mecanismo apenas um processo de autoengano em loop. A pessoa não encontrou a liberdade, ela apenas rebatizou a velha escravidão e idolatria do “eu” com este nome.


O pior é que o processo vicioso de autoengano fornece um mecanismo muito sutil para filtrar a culpa e a frustração. Há uma sensação de amadurecimento, que na verdade não existiu. E se, por acaso, o indivíduo sentir um cheiro de fracasso, ou ouvir o sopro do vazio existencial batendo na porta, basta dizer que são as forças opressoras (seja lá o que isso signifique), tentando minar a sua felicidade. A partir daí já pode colocar a culpa por este fardo emocional na família, no casamento, na falta de dinheiro, nos problemas no trabalho, etc. E para dar a volta por cima é simples: é só jogar fora tudo que está contribuindo para seu mal-estar, e correr atrás do próximo mimo para o deleite do "Eu".

Tiago, no capítulo 4 de sua Carta, nos lembra que as guerras e contendas que há entre nós são fruto dos "prazeres que militam na nossa carne", querendo dizer com isso que vivemos mal pois temos corrido sempre para satisfazer a nós mesmos. Ele é ainda mais claro quando diz que pedimos e não recebemos porque pedimos mal, para esbanjar em nossos próprios prazeres. A solução de Tiago é razoavelmente simples e clara para quem entendeu o Evangelho: "resisti ao diabo... sujeitai-vos, portanto, a Deus".


A Palavra de Deus nos chama a sair da infância da alma, mas isso se faz negando ao próprio “eu”. Biblicamente, só há uma maneira de fazer isso da forma certa: Perdendo a vida para Jesus. Em Mateus 16.24-26, Jesus disse:


Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?

Jesus explica que a única maneira de salvar a vida é fazendo a entrega de tudo que somos a Ele. Ou seja, se tentarmos preservar a vida, perderemos absolutamente tudo. Mas se entregarmos a vida a Ele, seremos salvos verdadeiramente.


Vale a pena observar o contexto desta afirmação de Jesus. Ele falava com os discípulos sobre a Sua morte. Pedro disse que isso não aconteceria. Jesus, então, dirige-se a Pedro desta forma: “Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.” (v. 23).


Veja, Jesus não está preocupado em preservar a Si mesmo, Ele quer fazer a vontade do Pai. Esta é a verdadeira liberdade. Este é o verdadeiro sentido da vida. Estamos aqui para viver para Deus, para nos consagrarmos a Deus, para nos dedicarmos, e gastar, e consumir nossa vida para Deus, diante de Deus, para o SENHOR.


Qualquer outro caminho é engano e autoengano. Existe um caminho em que podemos realmente viver o pleno sentido de nossa existência: seguindo a Cristo, vivendo para Deus, nos entregando ao Soberano Senhor e Rei completamente. Paulo afirmou: “Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.” (2ª Coríntios 5.15).


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Pense sobre isso:

  • Você vive para Cristo?

  • Ou ainda vive para si mesmo?

  • Você ainda luta pela preservação de si mesmo?

  • Ou seu “eu” já foi submetido a Ele em verdadeira consagração?